Cozinha e serviço: separados

Cissa Bernardes

Cozinha e serviço: separados

Com a ascensão das cozinhas ao status de ambiente social, muda-se a configuração das casas. Novas moradas propõem o afastamento da área de serviço

O papel das cozinhas nas casas mudou de várias maneiras ao longo da história. No cenário atual, o que se tem proposto é um desligamento da área de serviço, não raramente vinculada a este ambiente.

De acordo com o arquiteto Afonso Walace de Oliveira, diretor do escritório Dávila Arquitetura, este distanciamento reflete uma evolução da sociedade e dos hábitos das famílias atuais.

“Cada vez mais, a cozinha é vista como um espaço de socialização, onde as pessoas têm prazer de estar. Em Minas Gerais, por exemplo, a cozinha fica bem no fundo das casas, muitas vezes em uma espécie de ‘puxadinho’ ou apêndice. Isto se devia por razões logísticas: mais próxima do quintal, ficava mais fácil estocar e abastecer o fogão a lenha com madeira e carvão. Por outro lado, também trazia mais segurança em relação ao possível risco de incêndios inerentes ao fogão a lenha e suas fagulhas. Hoje, porém, tudo mudou. Além dos alimentos já virem até nós selecionados e embalados, o ato de cozinhar transformou-se em um hobby associado à possibilidade de reunir os parentes e amigos em torno de uma refeição. Mesmo antes, a cozinha sempre foi um local de encontro e socialização para os mineiros, ainda que as refeições principais, propriamente ditas, acontecessem em outro ambiente”, relata.

Para Afonso, as cozinhas atuais vêm com o intuito de agregar pessoas e criar conexões, se conectando, cada vez mais, à sala de jantar e estar, que por sinal, vão se integrando todos em um único espaço ou em espaços muito fluídos e contíguos entre si.

“No início, eram modestos passa pratos em uma janela aberta entre a cozinha e a sala. Com o tempo, esta janela foi se expandindo, transformando-se em uma porta e depois, em um grande vão, até que as divisões físicas entre cozinha e sala finalmente sumiram. Com esta integração da cozinha com a sala, quem realmente ficou sobrando foi a área de serviço. O que se faz, normalmente em uma área de serviço? Lavamos e secamos roupa, enchemos baldes de água e...bem, isso é praticamente tudo. A ‘lavanderia onde se pode encher um balde’ foi e vai perdendo o sentido de estar conectada à cozinha”, explica.

A união entre estes dois ambientes ainda existe, por motivos econômicos, pois em casas e apartamentos menores, seria uma forma de economizar com instalações hidráulicas. Já em apartamentos maiores e mais luxuosos, no entanto, isto não é relevante e, por isso, a cozinha, que se tornou social, fica na área social e a área de serviço, vai se distanciando. E, com este novo rumo que a arquitetura vem tomando junto à evolução das famílias, é bem possível que a área de serviço pode vir a deixar de existir em um futuro próximo.

“Quando observamos a evolução que ocorreu nos EUA, por exemplo - que experimentou uma transformação social semelhante à que vivemos agora - concluímos que a máquina de lavar e secar, ou seja, a lavanderia, deve migrar para uma área totalmente independente da cozinha, instalando-se no porão, nos fundos da casa ou do apartamento, junto a um banheiro ou até em um corredor íntimo, próximo à rouparia. Obviamente isto depende de máquinas de lavar que também secam, ou da disponibilidade de secadoras, já que não dá para instalar varais no corredor ou nos quartos. Esta, porém, é uma tendência que já enxergamos na indústria: são cada vez mais comuns estas máquinas que fazem tudo. Infelizmente, ainda não passam as roupas, mas já existem inúmeros tecidos que dispensam o ferro de passar”, descreve Afonso Walace.

Em seu empreendimento DUO, o escritório Dávila Arquitetura já traz inovações em relação à (não) comunicação entre área de serviço e cozinha. Esta última, por exemplo, possui total valorização, sendo, literalmente, mais um espaço gourmet, de realização pessoal, do que um espaço de serviço.

“A cozinha é o novo espaço de estar e no DUO o layout foi pensado para viabilizar esta total integração com os demais ambientes sociais, como a sala de jantar e o living. Há, é claro, a opção de manter a separação, para aqueles que ainda não estão prontos para esta abertura, mas percebemos que a total fluidez entre os espaços é a situação mais procurada por todos. As novas famílias ou os indivíduos que moram sozinhos querem se conectar cada vez mais e, por isso, as áreas sociais do DUO são bastante valorizadas dentro e fora do apartamento com ambientes coletivos do condomínio que, também, favorecem a realização de encontros”, encerra Afonso Walace.